29 de abril de 2013

para Aída


nunca amar a nada e a ninguém é a única receita infalível para não sofrer
Aída Bortnik (1938-2013)

Ontem faleceu a roteirista e escritora  argentina Aída Bortnik, ela foi minha professora de roteiro em Buenos Aires.
As aulas de Aída Bortnik aconteciam na sala de sua casa. Um apartamento amplo no 13º, e último, andar de um edifício na Avenida Pueyrredon em Almagro, bairro judaico e berço do Tango. Funcionavam no esquema sarau: cada um lia seu texto em voz alta. O cômodo era tomado de estantes repletas de livros e os alunos sentavam em círculo a sua volta.

Aída não andava. Vítima de inúmeros problemas de saúde, ministrava as aulas sentada em uma cadeira adaptada disposta no meio da sala, com uma mesinha a sua frente. Ouvia minuciosamente cada um dos cerca de 50 alunos que frequentavam o curso divididos em turmas menores nas noites de terça a sexta. E aproveitava o intervalo da aula, quando nos era servido uma janta caseira, para devorar algumas páginas de livro. Os encontros eram semanais e jamais um título se repetiu em sua mesa.
Havia uma grande varanda tomada por uma roseira colorida e muito bem cuidada. Era o mirante perfeito para o pôr-do-sol rosado e brilhante. Durante a primavera, quando o sol se põe mais tarde, ela interrompia a aula para que contemplássemos as cores do lusco-fusco. Com ela também aprendi a notar as tonalidades de marrom dos troncos das árvores e as infinitas possibilidades de poesia da natureza.
As tarefas que passava eram sempre baseadas na leitura de grandes textos literários. Falava de Camus, de Dickens, de Shakespeare, de Salinger, de Faulkner, com a alegria contagiante de quem descreve um grande amigo, e alguns escritores de fato o eram como Gabriel Garcia Marquez (“el Gabo”). Era apaixonada por Borges, e não tão fã de Cortázar, para citar os baluartes da literatura nacional.
Da primeira a última aula o nervosismo foi o mesmo, mas o sotaque brasileiro foi amenizando ao longo do ano. Ela jamais abriu concessão pelo fato de eu ser estrangeira. Ler um texto literário de minha própria autoria na frente de Aída era desnudar a alma. Prova semanal de valentia.
Em uma das primeiras aulas tivemos que fazer um texto sobre o conto “O Caçador” de Tchekhov. Uma colega escreveu um lindo conto descrevendo um campo de lírios brancos e situou a cena no outono. Aída elogiou o trabalho, mas disse que havia um erro na narração. “Lírios brancos não nascem no outono na Rússia”. A classe toda arregalou os olhos. Uma ação dramática para exemplificar uma pessoa culta e exigente se construíra. E tive plena noção dos desafios que me esperavam pela frente.
Ela fazia cada aluno dar seu melhor. Não permitia corpo-mole e mediocridade. Era muito ríspida quando acontecia. E expunha sem pudores sua frustação com o mundo atual, muito individualista , superficial, e com a falta de interesse dos jovens pelos estudos. Foi justamente esse sentimento que a fez aceitar o convite d o diretor Juan José Campanella para ministrar as aulas do curso que frequentei, batizado de “Escribir Cine”. “Este país está indo a merda por falta de bons escritores” falou uma vez. Campanella é seu principal discípulo. Seus métodos funcionam ;).
Nas aulas, entre uma leitura e outra das tarefas ela se permitia reflexões sobre a vida. Em uma delas disse: “No hay gente gris”, traduzindo ao pé da letra seria “Não há pessoa cinza”, querendo dizer que todo mundo tem características interessantes. E sugeria que não se pode ignorar a complexidade do ser humano. Cada pessoa traz uma carga única, fruto de sua experiência individual e intransferível. E em termos práticos, saber observar essa complexidade é a principal ferramenta para construir um bom personagem.
Aída não exigia que escrevêssemos no presente usando o padrão clássico de roteiro. Gostava de deixar os alunos livres para criar como quisessem (um ilustre colega escreveu letras de rap, por exemplo). Mandava as favas os manuais de roteiros. Sempre batia na tecla que um bom roteirista era antes de tudo um bom escritor, um bom contador de histórias.
“Vivir” (viver). Foi falando do escritor ucraniano Isaac Babel, quando nos passou a tarefa sobre seu livro “Exército de Cavalaria”, que Aída soltou este verbo. Gorki escritor e mestre de Babel disse ao discípulo que ele escrevia muito bem, mas que tinha viver para ser um escritor de verdade. Babel levou o conselho a sério e se alistou no exercito russo. Vivenciou experiências extremas e as reportou de um jeito único no conjunto de contos que tivemos que ler.
Aída queria que fossemos além, que criássemos, que nos propuséssemos a novas experiências, que produzíssemos textos capazes de gerar inquietações nos leitores ou espectadores.
Ela teve um grande amor em sua vida. “Um homem que se apaixonou por mim e eu por ele. O que é difícil de acontecer”. E durante as aulas, olhando para ela, gostava de imagina-la colocando em prática sua sua paixão pela literatura, pelo cinema e vivendo aquele amor incondicional pelo marido, cujas fotos estavam espalhadas por toda casa. E me punha a pensar quantos desafios ela superou. Ser mulher latina, judia, e ter posição política bem definida e declarada... Certamente foi uma jornada heróica.
A última aula do curso foi no dia do meu aniversário e véspera da minha volta ao Brasil. Foi uma aula bem gostosa. Diferente das outras não tivemos que escrever nada e sim levar poesias que tivessem algum significado pessoal.  No intervalo tomei coragem e disse a ela o quanto a admirava, que havia aprendido muito com ela, e que toda a leitura e escritura proposta nas aulas mudaram meu jeito de ver o mundo. Ela, que até então sempre parecera indiferente e dura comigo, sorriu um sorriso doce e disse, com seu jeito intenso “que hermoso”. Melhor presente!
Aída será sempre um exemplo a ser seguido, como roteirista, sim, claro, mas principalmente como pessoa apaixonada pela vida. A vida é breve e precisa de um roteiro emocionante. 



***
Ah! Aída concorreu ao Oscar© de Melhor Roteiro Original por a “A História Oficial”. O filme ganhou a estatueta de melhor filme estrangeiro em 1985. Outro filme de sua autoria “A Trégua” também concorreu ao Oscar© de melhor filme estrangeiro em 1974, mas perdeu para “Amacord” do Fellini.

26 de março de 2013

as histórias desenhadas de Ronaldo Fraga

Essa semana chega às livrarias o livro “Caderno de Roupas, Memórias e Croquis”, um registro cuidadoso do processo criativo de Ronaldo Fraga nos últimos 18 anos.



Olhar um caderno de desenho, um mural de referências de um profissional da criação é como entrar em sua casa, reparar na decoração, nos porta-retratos e espiar os outros cômodos mais privados sem ser convidada. É como abrir uma portinha para o cérebro do outro, sabe?

O livro é uma aventura imagética que engloba da coleção verão 2013 (Turista Aprendiz na Terra do Grão-Pará) até o inverno 1996 (Eu Amo Coração de Galinha). 

Eu Amo Coração de Galinha - Inverno 2006

Nara Leão Ilustrada por Ronaldo Fraga Verão 2008


Turista Aprendiz Verão 2011
Contudo, uma das leituras possíveis do livro reside nos escritos que apresentam as coleções. Com o passar dos anos Ronaldo foi lapidando também a forma textual como costura referencias e inspirações para contar suas histórias usando a moda como plataforma.

Aproveito o lançamento do livro para tirar da gaveta o bate-papo que tive com o estilista ano passado quando estava morando em Buenos Aires. Ele visitou a capital argentina para participar da edição anual da Conferência do Centro Metropolitano de Design – realizada em um espaço de proposta inovador e localizado no bairro de Barracas.

Ronaldo Fraga ao lado do Gardel feito de post-it/ foto: Rogerio Lacerda©

O estilista é super reconhecido por lá.  Conseguia dar poucos passos e logo era abordado por um fã portenho. Ele me explicou que a coleção “Quem Matou Zuzu Angel” (verão 2002) é uma referencia na Argentina porque trata uma passagem trágica do período da ditadura militar com muita poesia, coisa que quase ninguém consegue fazer por lá.

A coleção Disneylândia (verão 2010) ele fez inspirado no México, mas abrangendo seu olhar para toda a América Latina. Reproduzo o texto de apresentação aqui:

Agora olho para a América Latina que definitivamente não é dos generais e dos ditadores cucarachas perdidos no tempo. Que não é a do visto negado para entrar nos Estados Unidos ou que acredita que a corrupção é cultural...
Namoro uma América Latina multipolar de riqueza multipolar, de riqueza cultural afetuosa e inesgotável. Meus olhos brilham pelas festas mexicanas pelo artesanato têxtil colombiano, pelo cinema argentino, pela obra de Borges, Cortazar e Gárcia Marquez.

O estilista começou sua palestra confessando o quanto é fã do cinema argentino e foi assim também que começamos a nossa conversa:

Cinema Argentino
Eu admiro muito a capacidade dos argentinos fazerem filmes onde se privilegia o roteiro. São filmes feito com baixo custo! Eles retratam muito bem a época em que estão vivendo e mostram como eles são. Gosto muito dessa melancolia; do drama que aparece mesmo quando é uma comédia. Um dos filmes mais lindos que vi na vida é “O Filho da Noiva”. Trata com sutileza as nuances do nosso tempo. Também adorei “O Homem ao Lado”.

Coleção Inverno 2013 
(que apresentaria poucos dias após sua visita a Buenos Aires)
Quatro pessoas diferentes me presentearam com o livro “Ô Fim do cem, fim...”. É um Fax-Simile do diário do Pedro Paulo, irmão do Paulo Pedro que esteve internado na mesma enfermaria do Arthur Bispo do Rosário.




Ele fazia a escrita do mundo. Quando vi o livro percebi que não era um livro para ler. Pensei “a leitura aqui é outra, a escrita aqui é outra”. A escrita o libertou da doença. Foi o que deu estrutura e armadura pala ele viver. E por que eu não lí? Porque não queria que fosse pelo caminho da “coisa feita por um doido”, que caísse no jocoso. O design (do caderno dele) é extremamente sofisticado. Por exemplo, Guimarães Rosa era letrado e inventava palavras. O Pedro se coloca como astrofísico. Ele inventava palavras também! É uma coleção extremamente gráfica. Parti de uma camisa de força para fazer os vestidos.

Escrevendo a moda...
A moda é escrita pessoal. Tem gente que escreve fazendo comida, tem gente que escreve fazendo moda, tem gente que escreve desenhando e te gente que escreve escrevendo. E a sua escrita pessoal tem que te libertar.

Criando seu próprio personagem...
Acho que a literatura é a fonte mais fácil pra você criar imagens. O Machado de Assis te dá o personagem. Drummond te dá o personagem. Você sente até o cheiro da roupa dos personagens (quando está lendo). A moda como é feita normalmente precisa de uma imagem para ser copiada, para ser repetida. A literatura te dá autoridade. Você vai criar o seu próprio personagem. Vai criar sua Capitu, sua Diadorin. A minha Diadorin e o meu Riobaldo não são os mesmos que o Guimarães Rosa imaginou.

Pra que fui inventar isso?
Eu sou escolhido pelos temas. E não é raro chegar no meio do caminho e me perguntar: “pra que que eu fui inventar isso”? É angustiante, mas essa angústia é transformadora.

Contar histórias...
Seu filho te pede para contar uma história, mas na verdade ele está pedindo um afago. Ele quer dormir ouvindo você contar alguma coisa. O ato de contar uma história para uma pessoa é um ato de carinho. O que eu quero vender pra você não é roupa. Roupa está todo mundo vendendo por aí. Eu tô vendendo uma página em branco para você construir um personagem. As vezes eu encontro as pessoas e elas falam: “tenho uma peça do Drummond, tenho uma peça da Zuzu Angel”.

Minha bandeira é...
Tem gente no Brasil que acha que eu levanto a bandeira de fazer moda brasileira com temas brasileiros. Não. Eu levanto a bandeira da referencia cultural. Meu ponto de partida é muito bem construído. Para alguma pessoas, por exemplo, o desfile da Pina Baush lembrava uma festa junina de Campina Grande (PB). Para falar da cultura do outro você tem que ter propriedade para falar sobre a sua.

Pina Bausch - Inverno 2010



Latinidade...
Até pouco tempo era impensável um evento de moda e design no Chile, na Colômbia e no México convidar um estilista brasileiro. A moda tem que ser entendida como valor cultural. As vezes eu chego aqui (em Buenos Aires) e as pessoas conhecem muito mais o meu trabalho do que muitos no Brasil. É inegável que o Brasil é a locomotiva da América Latina. É um pais grande. Acho que o Brasil tem uma relação de soberba, não dá muita bola para a América Latina. Hoje o Mercosul se reúne para analisar relações comerciais e deveria analisar outras coisas.

(esq.) China -  Inverno 2007; (dir.) Disneylândia de Ronaldo Fraga (verão 2010)


Os olhos que brilham diante de um mundo caduco...
O mundo está voltado para a América do Sul. Estamos passando por uma redescoberta. Ainda temos valores que o mundo perdeu: os olhos que brilham diante de um mundo caduco. Nós temos o know-how de convivência com a crise. Aprendemos a assobiar e chupar cana. Aprendemos que comédia e tragédia estão no mesmo lugar. É uma sabedoria no tempo que a gente tá vivendo.

19 de março de 2013

monalisa, move!

Hoje é o último dia da exposição Move!, em cartaz no SESC Belenzinho. A mostra idealizada por David Colman e por Cecilia Dean (da Visionaire) ficou em cartaz apenas 10 dias (fast-fashion, fast-exhibition) e mistura conceitos da arte e da moda. 

São oito obras co-criadas por um estilista e por um artista: 
- Marc Jacobs + Rob Pruitt; Alexandre Herchcovitch + Mauricio Ianês; Francisco Costa + Vik Muniz; Dudu Bertholini + Rick Castro; Pedro Lourenço + Banzai Studio; Ellus + Petter Coffin; Ryan Mcnamara + Diane Von Furstenberg + Osklen  e   Olaf Breuning + Cynthia Rowley

As instalações ali propostas convidam o público a vivenciar o mundo da moda de maneira visceral.

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Foto: Rebeca Moraes© 
Crianças na obra “The Big Picture”, de Ricardo de Castro e Dudu Bertholini

As obras:


(obrigada Rebeca Moraes por emprestar o i-phone)

Essa reportagem do programa Metrópolis explica direitinho a exposição:




A obra Splash! de Olaf Breuning + Cynthia Rowley :




***
Quando visitei o Museu do Louvre lembro que me senti tão confusa como maravilhada. Não sei quantos séculos de arte naquelas paredes com milhares de obras do rodapé ao teto.  É caminhar por aqueles corredores e escutar uma voz imponente falando assim: “vejam, pobres mortais, como nós somos os detentores da arte mundial”! 

Depois de ver a expo Move! lembrei muito do texto da Susy Menkes sobre o circo da moda. De certa forma o mundo da moda, como era apresentado até meados dos 2000’s, tinha um pouco essa conotação do Louvre: fashionistas vestidos de preto trancados em uma sala vendo desfile e definindo as tendências. Aí a explosão dos blogs e das redes sociais trouxe a tona, e com sucesso, a  verdadeira relação dos pobres mortais com a moda: como parte do cotidiano, por meio dos looks do dia, das compritchas na última viagem, da roupa usada na festa da amiga e até no próprio casamento.

Não é preciso decifrar o Código da Vinci para perceber que a maioria das pessoas que vão ao Museu do Louvre têm como objetivo tirar foto ao lado da Monalisa e da Vênus de Milo, comprar o souvenir e postar em algum lugar da web. É a parte mais acessível de todo aquele universo que de tão majestoso se torna impessoal.

Ver uma expo como a Move! faz entender que a relação dos dois mundos -  da criação, da informação privilegiada com o consumo - pode ser harmonica e benéfica para ambos os lados.

Como fazer isso na prática, no mercado, e na imprensa? A resposta ainda é tão enigmática quanto o sorriso da obra prima de Da Vinci. Na trilha pela resposta a dica é sempre estar em contato com a arte, seja ela da renascencentista ou ultra contemporânea. Assim o cérebro fica exposto a novas conexões.

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